
O meu prazer, quando criança, era transformar o meu sentir em palavras. Continuamente em êxtase com o jogo de letras e possibilidades, encontrava ali uma forma de enxergarem da mesma maneira que eu enxergava o mundo. Que, através dos meus escritos, enxergassem os mais diversos ângulos do mesmo ponto, adicionando assim outro conto ao meu acervo, selecionando prioritariamente o meu assunto favorito: alinhar o meu mundo àquelas folhas de papel. E o meu mundo. Ahhh, o meu mundo era pura poesia. Multicolorido como o arco-íris após um chuvisco de verão, frágil como vidro, que, uma vez em estilhaços, fere como o espinho de uma rosa que outrora lhe encantou. Palpável como a xícara de cafeína que embriaga as minhas atuais manhãs e amanhãs. E era doce. Como era doce. Minha conexão entre liberdade e frenesi. Quantas crianças gostavam de escrever na minha idade? Nunca soube de nenhuma, não que isso fizesse uma diferença mensurável, afinal, não importava. Era POR MIM, apenas.
Restringia-me a externar os pensamentos que se encontravam em minha mente, impossibilitando o espaço para novidades. Sem maiores exigências, apenas capturava os momentos (possivelmente imaginados), imagens dispersas, olhares marcantes, e os sentia. Entregava-os ao desconhecido. Na época, eu tinha um pacto. Um pacto com os meus sentimentos.
Minha fidelidade rondava o âmbito das palavras que me seguiam, e eu as seguia também. Seguia obsessivamente. Eu buscava-as freneticamente, com todo o meu ser. E as palavras vagavam livremente, sem percurso definido ou rumo fixo, homogeneizavam-se com o ar, aumentando a minha sede de obtê-las por meio da minha respiração ofegante.
Como definiria a minha vida naquela época? Minha vida era pura. Pura melodia! Acordo e sincronia, acorde e sinfonia. Os meus poemas emitiam sons peculiares, ligados ao meu coração por elos invisíveis e vibrantes que me inspiravam nada mais que constantemente. Eu criava rimas? Não. As rimas me criavam.
Simplificando, era apenas uma garotinha, detentora de umas poucas informações, de uma visão limitada de mundo, especialmente relacionado à técnica. Você pode presumir que eu não tinha quase nada. Ainda assim eu era a garotinha que escrevia poemas. Eu disse QUASE nada. Eu tinha tudo que eu poderia precisar. Mesmo que mirando sua imagem não me reconheça.
Minha história é como outra qualquer, não quero levar-lhe a crença de que, por escrever poemas, para que a minha (antiga) realidade aparente maior beleza do verdadeiramente havia. O destaque perante os olhos curiosos é apenas aparente. Mas os sedentos por uma realidade que lhes faça sonhar hão de encontrar alento em meu relato.
Por um instante, resgate uma lembrança preciosa que fora esquecida em um canto qualquer de sua memória. Não somos tão diferentes assim. Eu aqui, você aí, similares em algum aspecto por compartilhamos um momento. Soa bonito... não? Surreal.
*FOCO.
Uma criança, comumente, se diverte com bicicleta de rodinhas, um par de patins brilhantes ou com games de computador. O meu encanto era escrever poemas, colher flores e pronunciar com convicção os dizeres: bem me quer mal me quer, juntamente com cada pétalas que retirava. E eu acreditava. Eu acreditava que as palavras produziam o mundo.
Esse é o meu pedacinho do céu. O meu segredo. De quando pequeninas estrelas brilhavam em meu coração. Estrelinhas coloridas percorrendo o meu corpo, iluminando as direções, preenchendo sutilmente de expectativas o meu ser. Após vibrarem por entre meus dedos, encontram liberdade para serem carregadas pelos quatro ventos, vagando por todas as dimensões, não cerceadas apenas às paredes no meu quarto, brilhavam soltas por aí.
*Sabe aquele pedacinho do céu, aquele guarda só para você? Eu deixava que minhas estrelinhas brilhassem também no céu de alguém.
Eu tinha uma porção de poemas que falavam sobre amor. E que criança, com aproximadamente oito anos, conhece o amor? Eu conhecia.
Eu cresci em uma cidade pequena. Mas o que define pequenez ou grandeza? Se o referencial adotado estiver relacionado ao espaço geográfico, então definiremos dessa forma: uma cidade pequena. Essa cidade “pequena” ocupava todos os espaços do meu ser.
Encontrava a resposta para o preenchimento desse espaço diariamente, podendo inclusive associá-lo ao meu acordar e recostar. E na espontaneidade que encontrava em mim nas duas ações mais simples do cotidiano. O meu “acordar sorrindo todos os dias” e o meu recostar, sempre fazendo figas para que amanhã chegasse prontamente e fosse ainda melhor que o dia de ontem. Nesse lugar (quase mágico) nada era obrigação, convenção, necessidade ou acontecia por previsão em Lei. Eu senti o que é plenitude. Correndo por entre gramados, escalando árvores, brincando com o cachorro, encontrando lugares inusitados, altos o suficiente para enxergar sua cidade natal. Sentir as ondas do mar, deleitar-se com a visão do mar, com o som das ondas quebrando.
* “Felicidade é um fim de tarde olhando o mar”
Sentir a areia por entre os dedos dos pés, das mãos, areia seca, molhada. Domingo a domingo em família. Parque de diversões nas férias. Sorvete na pracinha. E o vento. O vento e suas peripécias, cantarolando ao pé do ouvido a mais doce canção, como um sopro de... vida.
Viver é sentir. E supor, uma vez que seja, que o dia nasceu só para você. E eu sentia isso. Eu senti.
Eu não consigo enxergar minha cidade natal daqui. Talvez Brasília não seja alta o suficiente. E possivelmente não enxergarei aqui da mesma maneira que enxergava lá. Junto com as estações, minha vontade de escrever acabou se esvaindo, o meu dom com poesias se reduziu a poeira. Agora me digam onde está a minha lembrança bonita, o meu sonho bom, o meu sopro de vida.
Um pedacinho de mim ficou por aí. Quem encontrar, por favor, devolve pra mim
*Eu sou uma garota de interior.
Eu acreditava que as palavras produziam o mundo, até perceber que este nem ao menos cabia dentro delas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário